Na França do Século XVIII, a injustiça social e a crise econômica chegavam a condições insustentáveis. Porém, o regime absolutista condenava, quem ousasse se opor, à Bastilha (prisão política da Monarquia) ou à guilhotina.
A vida dos trabalhadores e camponeses era de extrema miséria. A burguesia, mesmo tendo uma condição social melhor, desejava maior participação política e mais liberdade econômica.
Foi diante deste clima de insatisfação que o povo se uniu e decidiu ganhar às ruas para tomar o poder. O lema dos revolucionários era “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. O processo revolucionário se estendeu por 10 anos (1789-1799) e, apesar de ter alcançado grandes conquistas para a humanidade, deixou profundas marcas com massacres, prisões e fome.
Nos anos seguintes, a França viveu períodos de constantes batalhas e golpes, especialmente durante o período napoleônico. Diante deste cenário desolador, segundo palavras do Padre André Coindre, viam-se “montões de jovens pobres que vagavam pelas cidades. Alguns eram enviados pela família para diminuir o número das pessoas e assim poderem sobreviver, outros haviam abandonado a família, ou melhor, haviam sido abandonados por ela. Ofereciam-se para trabalhar não importa em que trabalho. Pediam esmolas e roubavam”.
PADRE ANDRÉ COINDRE
IDEALISMO, AMOR AO PRÓXIMO E DEDICAÇÃO À VIDA CRISTÃ
O Instituto dos Irmãos do Sagrado Coração nasceu como resposta do Padre André Coindre às necessidades da época. Mas, antes de seguir adiante em nossa história, vamos saber um pouco mais sobre o homem que deu início a esta missão.
André nasceu em 1787, em Lyon, na França. Ensinado por sua mãe, aprendeu desde cedo a rezar. Sempre estudou em seminários, e em 1812 recebeu a unção sacerdotal e tornou-se padre.
Em 1815, entrou para a Sociedade Missionária de Lyon, conhecida como Cartuxos, onde se destacou como orador. Seu trabalho na Igreja teve como característica o espírito missionário, visitando lugares distantes, levando a Palavra de Deus.
Em uma de suas andanças, Pe. André Coindre encontrou algumas meninas abandonadas e sentiu, neste momento, sua verdadeira vocação. Ele conduziu as meninas até Claudine Thévenet que as acolheu e juntos fundaram o Instituto das Religiosas de Jesus e Maria.
A partir deste fato, Padre André Coindre se dedicou à “aventura” de buscar maneiras de acolher crianças e jovens, dando-lhes formação cristã e oportunidades para construir uma vida digna, assim como ele próprio narra em uma de suas cartas: “Senti em minha alma como uma voz que me dizia: Você não prega tanto o amor de Deus? Não é o seu tema preferido? Pois o amor de Deus é para ajudá-lo a dar uma resposta a essas pessoas. Procure encontrar para elas um lar. E assim começou a minha aventura”.
A FUNDAÇÃO DO INSTITUTO
OS PRIMEIROS PASSOS DE UMA PRÓSPERA CAMINHADA
No início do século XIX a França sofria com o desemprego. Muitas crianças, adolescentes e jovens estavam órfãos, pois haviam perdido seus pais nas guerras ou então foram abandonados pelas famílias.
Com o coração sensibilizado por esta triste situação, o Padre André Coindre, usando seus próprios recursos e com algumas doações da comunidade, comprou um local para acolher e cuidar da ressocialização de crianças e adolescentes carentes. Esta obra começou a funcionar em 1819 e levou o nome de Pieux-Secours (Piedoso Socorro).
Além de recursos financeiros, o Pe. André Coindre precisava de pessoas que o ajudassem a cuidar da obra e dar continuidade a ela. Foi então que teve a ideia de fundar o Instituto de Irmãos. Reunir pessoas que, assim como ele, se indignavam com a desigualdade social e com a exclusão dos mais pobres e sentiam a vocação de doar-se pelos menos favorecidos, seguindo os ensinamentos de Jesus. Surgia o Instituto dos Irmãos do Sagrado Coração.
Em 30 de setembro de 1821 os primeiros Irmãos professaram os votos, o que representa oficialmente a consagração a Deus. Entre eles estavam Guillaume Arnaud, responsável pelas oficinas do Pieux-Secours, o professor François Porchet e Claude Mélindond, um jovem professor. Na ocasião dos votos, o fundador deu, a cada um deles, um nome religioso: Ir. Xavier, Ir. Paulo e Ir. Francisco. Até 1964, ao entrar para o Instituto, os Irmãos mudavam de nome, o que representava o desapego pelas coisas que ficavam para trás.
Estes três primeiros discípulos foram, junto com o Pe. André, o alicerce do Instituto durante os primeiros anos, buscando novos candidatos e dando seguimentos às atividades.
ALGUMAS DIFICULDADES
DESAFIOS PARA OS PRIMEIROS IRMÃOS
O Padre André Coindre viveu apenas cinco anos após ter fundado o Instituto. Em 1826, com a saúde esgotada, adoeceu e veio a falecer na Santa Casa de Blois (França) aos 39 anos. Mesmo com a morte precoce deixou um legado perene.
Com a morte do Pe. André Coindre, em 1826, além de perder sua figura de referência, o recém-formado Instituto se viu diante de algumas dificuldades.
Em 1829, o Pe. Vicente, irmão do Pe. André, assumiu como Superior Geral. Pela proximidade que tinha com o Instituto e por tê-lo acompanhado desde o princípio parecia o mais indicado para tal função.
Mas, uma série de erros e maus negócios levaram o Instituto à beira da falência e do desaparecimento. Os anos de sua gestão ficaram evidenciados como período de crise, até que em 1841 pediu demissão.
IRMÃO POLICARPO
A EXPANSÃO DO INSTITUTO PELAS MÃOS DE UM JOVEM
Com a saída do Pe. Vicente, os Irmãos se reuniram e elegeram Ir. Policarpo como Superior Geral. Todos estavam certos de que ele seria a pessoa ideal para assumir o cargo; todos, exceto ele, que pela sua humildade e pela responsabilidade que o cargo exigia, não se sentia preparado.